Gastronomia como arte: no Espírito Santo, isso sempre foi a essência
O país escandinavo propôs reconhecer oficialmente a gastronomia como uma forma de arte, elevando chefs ao status de artistas e pratos ao nível de obras de museu
Nesta semana, o cenário internacional voltou seus olhos para a Dinamarca. O país escandinavo propôs reconhecer oficialmente a gastronomia como uma forma de arte, elevando chefs ao status de artistas e pratos ao nível de obras de museu. Enquanto a Europa busca validação institucional para o que vai à mesa, o Espírito Santo observa o debate com a tranquilidade de quem já vive essa realidade há séculos. Por aqui, a cozinha nunca foi apenas nutrição; é a nossa mais genuína expressão de identidade.
O maior exemplo dessa simbiose entre técnica e estética está em Goiabeiras. As paneleiras de Vitória mantêm viva uma tradição secular que transforma o barro em um elemento fundamental do paladar. Diferente de um utensílio industrial, a panela de barro é moldada à mão, selada com o tanino do mangue e queimada em fogo aberto.
Neste contexto, a panela deixa de ser um recipiente para se tornar parte da composição. Como uma moldura que interfere na percepção da tela, o barro mantém o calor e confere o chiado rítmico que é a trilha sonora obrigatória de qualquer almoço em família. É a escultura que cozinha.
Se a arte moderna valoriza o "menos é mais", a moqueca capixaba é a sua expressão máxima. Ao contrário de versões que utilizam o dendê e o leite de coco, a técnica capixaba aposta no minimalismo: peixe fresco, coentro, cebola, tomate e o pigmento natural do urucum.
A aparente simplicidade esconde um rigor técnico apurado. O ponto do peixe e o equilíbrio da acidez exigem do cozinheiro a precisão de um restaurador. Não há espaço para improvisos que descaracterizem a obra; a moqueca é um cânone que exige respeito à origem.
A relação entre o capixaba e a comida atinge seu ápice em períodos rituais. Durante a Semana Santa, a torta capixaba assume o protagonismo. Mais do que uma receita, o prato é uma instalação coletiva que envolve famílias inteiras na escolha rigorosa dos ingredientes, do palmito ao siri. Cada residência funciona como um ateliê, onde a receita é reinterpretada sem perder o fio condutor da ancestralidade.
Atualmente, o Espírito Santo vive um momento de efervescência. Se na Ilha das Caieiras a experiência permanece "raiz", com o preparo à vista e os pés no mangue, novos chefs contemporâneos utilizam esses mesmos ingredientes locais para criar conceitos vanguardistas. Eles provam que o território, quando bem trabalhado, vira um conceito artístico global.
A iniciativa dinamarquesa é louvável e pode atrair investimentos e pesquisas, mas para o povo capixaba, o reconhecimento oficial é apenas um detalhe burocrático. Entre o fogo, o barro e o mar, o estado já provou que cozinhar é, acima de tudo, o ato de preservar a história e provocar emoções. No fim das contas, o mundo está apenas começando a nomear o que o Espírito Santo sempre chamou de vida.
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