Crise em Itaipava: Pescadores denunciam desamparo e "perseguição" após operações do Ibama

Comunidade pesqueira de Itapemirim relata prejuízos milionários, barcos lacrados e falta de diálogo com órgãos federais; lideranças cobram assistência para famílias sem renda.

Crise em Itaipava: Pescadores denunciam desamparo e "perseguição" após operações do Ibama
Crise em Itaipava: Pescadores denunciam desamparo e "perseguição" após operações do Ibama (Foto: Reprodução)

ITAPEMIRIM – A comunidade pesqueira do porto de Itaipava, no litoral sul de Itapemirim, vive dias de profunda incerteza e sensação de abandono. Conhecido como um dos maiores pontos de desembarque de pescado do Espírito Santo, o terminal tem sido alvo de severas fiscalizações ambientais que, segundo trabalhadores locais, estão inviabilizando o sustento de centenas de famílias e gerando um forte impacto socioeconômico na região.

O cenário de crise se arrasta desde setembro de 2025, quando a Operação Makaira, deflagrada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), resultou na aplicação de 260 multas que somam cerca de R$ 22 milhões e no lacre de 45 embarcações sob a acusação de pesca irregular em áreas restritas do litoral capixaba. Recentemente, uma nova investida do órgão ambiental voltou a paralisar barcos, impedindo os pescadores de exercerem suas atividades operacionais.

Durante as ações, a categoria relatou extrema dificuldade para acompanhar os procedimentos fiscais. Na época da Operação Makaira, em 24 de setembro do ano passado, o acesso ao porto chegou a ser bloqueado, impedindo o trânsito dos próprios trabalhadores.

Em entrevista à nossa reportagem, o presidente da Associação de Pescadores de Itaipava, Ulisses Vieira Raposo, externou a indignação da comunidade e criticou a postura do órgão federal, apontando a ausência de mediação e de apoio do poder público.

"O Ibama nunca chega aqui para dialogar com o pescador. O que está acontecendo hoje é uma perseguição. Infelizmente, os pescadores nunca são ouvidos", desabafou a Ulisses Vieira.

Segundo a associação e relatos de moradores, os pescadores artesanais sentem-se desprotegidos pelas autoridades, que cobram o cumprimento rigoroso de normas sem oferecer alternativas de sobrevivência ou canais de transição para a regularização da frota.

Nas ruas de Itaipava e nas redes sociais, o sentimento de revolta e solidariedade ecoa fortemente. Familiares de pescadores expõem o drama diário de quem depende exclusivamente do mar para sobreviver e hoje se encontra sem eira nem beira.

Em manifesto que repercutiu localmente, a moradora Rafaela Albuquerque destacou a vulnerabilidade e o sentimento de impotência da categoria. "Situação deplorável. Os pescadores saem todos os dias para ganhar a vida e o sustento para suas famílias, enfrentam tantos perigos para chegar no Porto e ter seu pescado recolhido assim, e sem nenhuma potência, sem poder fazer algo. Ser tratado de forma indiferente... eles precisam ter voz, já passou da hora de ser feito algo, de ter um reconhecimento."

Por sua alta relevância econômica e volume de produção, o terminal de Itaipava é historicamente um alvo frequente de ações de controle de pesca predatória e cumprimento de metas ambientais por parte do governo federal. Operações semelhantes e de grande impacto também foram registradas na região em 2019 e 2022.

No entanto, moradores e comerciantes locais argumentam que a repetição dessas ações punitivas, sem que haja um programa paralelo de assistência social, capacitação ou fomento à regularização, empurra os trabalhadores para a informalidade e para o desemprego, sufocando a economia do litoral sul capixaba.

Nossa reportagem entrou em contato com a superintendência do Ibama no Espírito Santo e com a Prefeitura Municipal de Itapemirim para solicitar posicionamentos sobre as denúncias de falta de diálogo, os critérios das autuações e as medidas de assistência social destinadas às famílias afetadas.

Até o fechamento desta matéria, não houve retorno por parte dos órgãos citados. O espaço segue aberto para manifestação e atualização desta nota.

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