Drogasil adota escala 5x2 em todas as lojas da rede no ES
Empresa oferece novo modelo de trabalho para gerentes e farmacêuticos desde o fim de 2025 como estratégia de retenção, companhia diz que adoção ampla da escala geraria aumento de custos entre 15% e 20% no varejo
A discussão nacional sobre a flexibilização das jornadas de trabalho ganhou um capítulo de peso no setor do varejo. A RD Saúde, maior rede de farmácias do país e controladora da marca Drogasil, concluiu a transição para a escala 5x2 (cinco dias de trabalho por dois de folga) em todas as suas 3.500 lojas no Brasil, incluindo as unidades em operação no Espírito Santo.
A mudança, que começou a ser desenhada no segundo semestre do ano passado, foca estrategicamente nos cargos de gerência e farmacêuticos. O objetivo principal da companhia é reduzir o turnover (rotatividade de pessoal) e reter profissionais qualificados em um mercado altamente competitivo. No entanto, o movimento expõe a complexidade técnica e financeira que envolve a alteração das rotinas trabalhistas no comércio.
A engenharia utilizada pela RD Saúde permitiu adotar os dois dias de folga semanais sem mexer na carga horária totalizada em contrato. Os funcionários incluídos no novo modelo continuam cumprindo as 44 horas semanais previstas em lei, o que exige uma jornada diária mais estendida nos dias de semana.
Essa configuração divide opiniões dentro dos próprios balcões. De acordo com um estudo interno realizado pela companhia antes da implementação, cerca de 25% dos colaboradores manifestaram preferência por continuar na antiga escala 6x1. O desgaste de jornadas diárias mais longas e o impacto no deslocamento estão entre os fatores de resistência.
Se por um lado a gigante do setor conseguiu absorver a transição sem incremento de custos operacionais, o cenário muda drasticamente quando o debate migra para a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais, ou para a aplicação do modelo 5x2 na base da pirâmide (atendentes e caixas).
Em posicionamento que reflete o temor do setor varejista tradicional, Antônio Carlos Pipponzi, conselheiro da RD Saúde e presidente do conselho consultivo do Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV), defende que a modernização das escalas deve ser um fator de competitividade de mercado, e não uma obrigação impositiva do Estado.
"Para posições como farmacêuticos e gerentes, a escala de 5x2 se adapta muito bem, se adapta melhor. E a gente está trabalhando com essa escala. É uma tendência, uma evolução de mercado. Mas, para trabalhar com 5x2 em toda a linha abaixo das lideranças, o custo vai ser inflação na veia", avalia Pipponzi.
Conforme cálculos da própria companhia, uma eventual redução da jornada semanal para 40 horas geraria uma alta imediata de 10% nos custos operacionais das empresas. Para Pipponzi, o governo deveria intervir menos na regulação das escalas.
"Isso é um fator de competitividade. Se você deixa sem lei, enquanto a empresa começa a dar a escala 5x2, ela vai estar com os melhores funcionários. Se está com os melhores funcionários, ela vai ser uma empresa melhor. Ou se não fizer isso, pode pagar muito mais pela rotatividade dos funcionários", pondera o empresário.
No mercado capixaba, a movimentação da rede é acompanhada de perto por sindicatos e associações comerciais. O setor de farmácias e drogarias possui uma dinâmica particular de funcionamento, muitas vezes operando em regime de plantão ou 24 horas, o que torna a escala de trabalho o principal ativo na atração de mão de obra técnica.
Especialistas em recursos humanos apontam que o movimento da RD Saúde deve pressionar redes regionais e farmácias de médio porte no Espírito Santo a revisarem suas políticas de benefícios e escalas para não perderem seus melhores profissionais de ponta para a concorrente nacional.
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