O Mar que Alimenta e Sufoca. A Luta dos Pescadores do sul Capixaba entre a Paixão e a Inflexão Econômica
Em Marataízes, o pulsar da economia vem das águas, mas o cenário é de apreensão. Entre o Porto de Itaipava e o Porto da Barra.
O horizonte do litoral capixaba esconde uma tempestade silenciosa. Em Marataízes, o pulsar da economia vem das águas, mas o cenário é de apreensão. Entre o Porto de Itaipava e o Porto da Barra, pescadores enfrentam uma equação que parece não fechar, como manter viva uma tradição milenar diante de custos galopantes e um emaranhado burocrático que aperta o cerco sobre a atividade pesqueira.
A dinâmica da pesca no Sul do estado se divide em dois corações distintos, cada um sentindo o impacto da crise de uma forma. Considerado um dos maiores portos pesqueiros do Brasil em volume de captura de peixe de águas profundas (como o Peroá, Atum e o Dourado), Itaipava é o motor econômico da região. Aqui, a dor de pescadores como Bras Clarindo é amplificada. Com barcos maiores e viagens que duram semanas, o aumento de 25% no diesel não é apenas um detalhe, é um risco de falência para as frotas que sustentam centenas de famílias.
Em meio à crise, o município de Itapemirim onde a pesca é um dos pilares da economia, tornou-se um porto seguro para os armadores. Através do programa PRO FUTURO, a prefeitura subsidia 30% do valor do óleo diesel, gerando uma economia direta e vital para as embarcações. Segundo o prefeito Geninho ele precisou organizar a casa para manter o benefício. “Mesmo diante das dificuldades, o Prefeito colocou como prioridade continuar com o subsídio do óleo. Nos últimos três meses, o programa viabilizou 176 abastecimentos, garantindo que as redes continuassem no mar.
Localizado na foz do Rio Itapemirim, o Porto da Barra é o marco histórico. Ali, a pesca se funde ao turismo e à gastronomia. É onde o "braço já não aguenta", como diria Isaias Sabadine, mas o coração insiste. As embarcações menores sofrem com o assoreamento da barra e com os aumentos dos combustíveis, que se torna cada vez mais cara, o cenário para o pescador é de maior isolamento. Apesar de abrigar o Porto de Itaipava (gigante na produção oceânica) e o Porto da Barra (berço da tradição), o município não conta com um programa de subsídio de combustível similar ao da cidade vizinha.
Pescadores locais relatam que a ausência de auxílio torna a competição desigual, especialmente com o diesel projetando altas de até 25%. A redação buscou contato com a administração de Marataízes para questionar se há planos de incluir a categoria em algum programa de subsídio, mas até o fechamento desta edição, não houve retorno.
Para Isaias Sabadine, de 69 anos, o mar foi uma escolha de sobrevivência. Após anos na construção civil, ele trocou o cimento pelo mar. "A pescaria é mais leve", revela. No entanto, o alento físico esbarra no peso financeiro. O combustível, principal artéria logística da profissão, tornou-se o maior vilão da categoria.
Bras Clarindo Filho, veterano com atuação no porto de Itaipava, toca na ferida da insegurança jurídica. Para ele, o Porto de Itaipava e os demais terminais capixabas sofrem com uma "opressão" regulatória. "É tanta proibição que a gente acorda sem saber o que fazer. É portaria em cima de portaria, muitas vezes sem estudo, oprimindo o pescador brasileiro", desabafa Bras.
Se a lógica fosse estritamente financeira, as redes já teriam sido recolhidas. Mas a pesca é um estado de espírito. Antônio Carlos, de 68 anos, da Colônia Z-8, mantém o vínculo que começou com o pai. Para ele, as dificuldades ficam em segundo plano quando comparadas à liberdade do convés. "Quem é pescador é porque gosta. Eu gosto de navegar, de ver o mar e o sol nascendo lá fora".
Enquanto o Porto de Itaipava luta para manter sua relevância nacional e o Porto da Barra busca preservar sua identidade, os pescadores do Espírito Santo continuam a lançar suas redes. Eles navegam entre a esperança de dias melhores e a resiliência de quem sabe que, apesar de tudo, o mar ainda é o seu único e verdadeiro lar.
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